Divagações de 2.2.03

Pessoal, conto em dupla com a Samantha Turci :)
Beijos e depois venho com mais calma.

Cenas de Cinema


Parte 1 por Samantha Turci

O sol estava escaldante, ela andava rápido tinha que estar em casa antes dele chegar. Eram mais ou menos meio dia e meio e o sol estava a pico, uns 40 graus.

Sua pele clara e olhos também claros ardiam com a claridade e com os raios queimando-lhe, em poucos minutos estava ficando vermelha, cor de cereja, os cabelos vermelhos pingando suor fazendo com que ela parecesse um pimentão.

A panturrilha doia pelo esforço de subir a rua levemente ingrime com rapidez, ele talvez já a esperava e com certeza não iria gostar de não ve-la o esperando.

Subiu as escadas do prédio de dois em dois degraus, sentia a cabeça girar e o ar lhe faltar, tremia ao colocar a chave na fechadura e quando entrou foi direto ao quarto sem nem ao menos fechar a porta.

*---*

O telefone toca, o micro ligado mostra palaras desconexas de um e-mail ou a tentativa de um, a voz do outro lado é desesperada e ao mesmo tempo cheia de raiva

-Onde diabos você está?!

Um suspiro do lado de cá do telefone, algumas palavras troacadas na vã tentativa de acalmar quem ligou, outro suspiro.

Hora de morrer mais uma vez....

*---*

Respirava pesada e rapidamente, ele estava me casa, ela estava a atrasada, sentou-se ao pé da poltrona que ficava defronte à janela e deitou a cabeça em seu colo.

Não havia amor de ambas as partes, um lado era egocentrico demais, procurava seus prazeres, era o melhor que havia e o resto era o resto.

Ela era o resto...sentimentos não lhe importavam, dizia que sim mas no fundo pensava em si. Mimado queria que tudo fosse como bem lhe aprouvesse, tudo.

Se acertavam na cama mas isso não é o mais importante, nunca é. Tentava lhe fazer as vontades, calava a voz que gritava dentro de si : Liberdade!

Não sabia quem era, o que era, por que, só sabia que era....e não queria o perder, tinha medo da solidão, não queria ser rejeitada mas isso era anterior a ele, desde de seus 10 anos de idade, e isso perdurou mas até quando? Até quando a voz seria calada, e a liberdade tolhida?

*---*


Subiu as escadas após deixar o carro longe, não poderia vacilar, o serviço deveria ser perfeito. O porteiro não o viu entrar, tinha cuidado para que não fosse visto por ele ou por ninguém, respirava com calma, silencioso.

Os passos eram seguros como ele era seguro de si próprio, parou à porta e checou o número, tirou uma chave de um dos bolsos do casaco e adentrou o apartamento vazio, fechou a porta e caminhou até à janela.

Sentou-se numa poltrona e começou a abrir a maleta que havia trazido consigo. Primeiro o cano e o tripé, montou vagarosamente, não havia pressa embora housesse hora marcada.

E pouco a pouco foi colocando o silenciador, as balas perfeitamente polidas, 5 no pente, 1 na agulha, como tinha que ser.

Finalmente enxugou a única gota de suor que lhe escorria pela face, dobrou o lenço e voltou a colocá-lo no bolso, fechou os olhos e esperou. Em breve...





Cenas de Cinema


Parte 2 por M. Tetsuo


O gatilho fica mais e mais pesado não com as horas mas com os pensamentos passando.

Porque uma mulher estaria numa esquina durante a madrugada?

Sexo? Drogas? Dinheiro?

A resposta é sim. À estas três coisas resumiam-se os desejos e os anseios humanos que finalmente, assemelhando-se a uma pirâmide, tinham um único fim: Prazer.

Nervosa ela está, apesar de não aparentar.

Mulheres lembram sexo. Cheiram a sexo, movimentam-se como sexo. Ou são seus olhos?

"- Clarice, que porra de bolo é esse, vagabunda? Quer me envergonhar na frente de todo mundo?"

Afastar pensamentos insanos e fora de propósito e tempo. Dramas domésticos são pra tv, e o passado pertence a uma cova que recebe flores anuais.

Pernas tremem, uma leve excitação se formando na sola dos pés, sobe pelas pernas, terminando no sexo, ou talvez no estômago.

Sensação de glória. Domínio sobre vida e morte. Sobre VIDAS. Apesar de não conhecer a mulher, poderia atirar em sua cabeça. Um furo, giroflex e hospital, por fim necrotério e vala, depois mais nada. Não estaria mais em nenhuma esquina. Em lugar nenhum, nem mesmo na vala.

Pessoas são nada depois que deixam de existir.

Que poder, não? A mira fixou-se bem na têmpora, a fumaça do cigarro levado pelo vento batia exatamente no ponto. O dedo suando sente a resistência do gatilho. Um segundo, uma queda e um novo Deus. Este humano e palpável, talvez mais generoso.

Porra, quantas horas? Oito e ainda nada?


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O papel em branco doía os olhos, era perfeito e macio, mas opressor.

Sentimentos deveriam estar ali. Emoções.

Mas não estavam...

- Você me ama?

- Amo.

- Ama e mais o quê?

- Amo e amo.

- Não é o suficiente. Nunca é. E diante do teu silêncio, que se faça o silêncio.

- E você? Me ama?

- Menos.

- ...


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Não faz sentido isto. É hora de por um fim. Mas que fim?

Novamente solidão? Ser de alguém é "seguro".

"Você não é de ninguém"

Sou, claro que sou.

"E porquê? Aqui no manual não diz nada sobre isso. Você não foi programada para isso."

Como não? Eu sei que devo ser, sempre soube.

"Você não foi também programada para saber, e sim para questionar. Quando deixar de fazê-lo, não será mais nada."

Mas...porquê?

"Boa garota. Agora deite-se e deixe sua boca trabalhar."


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O dedo suado já padecia de cãibras. Há tempos as veias pediam mais, a realidade nua e crua estava quase voltando e não deveria ser assim. A lente olho de peixe deixa o mundo mais lúdico, mais inteligível.

- Porque demorou?

Os olhos seguem a direção do olhar. Algo vai acontecer, o dedo quase faz merda. Talvez seja a adrenalina voltando a circular pelo corpo, mas os olhos dilatam-se e as mãos tremem.

- Problemas.

- E isso é tudo o que tem pra me dizer?

Dane-se a discussão. Repetindo, dramas domésticos são pra tv.

Com a mira na têmpora e o gatilho finalmente puxado, tudo ficaria vermelho e estaria terminado. Era só fazê-lo, se as mãos parassem de tremer.

O pulmão encheu-se de ar, numa tentativa de aspirar também coragem e sangue frio.

O tranco e o baque surdo foram seguidos de um grito estridente. Somente segundos depois a cena se revelou. Nada de nuca, sequer próximo da cabeça. Nas costas, provavelmente de raspão. Maldita adrenalina ou seja lá o que for.

O choro, escândalo irritante, instilava urgência nas decisões e nas pernas. Mas ambas, pernas e decisões, permaneciam congeladas.

Em pé, observava o corpo, o tiro, os frenéticos cabelos compridos e loiros molhando-se de sangue. Queria guardar tudo aquilo, pintar um quadro. Ou. reconhecendo sua incapacidade artística, bater uma foto. Mas não havia máquina ali. Portanto saboreou o momento como um petisco, a cereja do bolo. Uma cena que se vê apenas uma única vez na vida( apesar de todas as cenas da comédia da vida serem únicas, sabia este ser um momento especial).

Flutuando entre o lírico e o real, novamente posiciona-se a mira. Quando o gatilho, desta vez leve e saboroso, movimenta-se, ele sente a leveza, a alegria e nove milímetros de chumbo no seu coração. Morre com a mão no peito, confundindo perfurações com pontadas de amor, sem tempo para o Gran Finale.

Os refletores deixam o pequeno quarto, mudam-se para o asfalto. Refletores fazem isso, abandonam sem remorso. Iluminam o exato momento em que uma Glock 9mm é colocada no coldre ainda cuspindo pólvora. E os olhos que divisam a janela agora escura e sem vida, sentem que havia acertado. Nunca errava um tiro sequer, era a sua profissão.

Sua atenção volta-se para os fios de cabelo loiros em sua mão. Quando olha para trás, vê-a caída, uma mancha escura no vestido preto.

Ao colocá-la respeitosamente sentada, seus olhos se cruzam. Olhares quase sinceros. E ela se sente à vontade para falar, gaguejando em adoráveis cuspidas de sangue. Cena de cinema.

- Você me ama?

Ele vasculhou as dezenas de pensamentos, centenas, talvez milhares. Procurou e procurou de novo, olhando com carinho e meticulosamente. Mas ela não estava ali. E envergonhado, abaixou os olhos e mentiu.

- Sim.

- E o quê ma..? - Um gorgolejo impede a última palavra de sair completa.

- E mais nada.

Ele sorri, a vergonha fica no passado, na vala, porque tudo tivera um fim, estava acabado e os créditos logo começariam a subir. Colocou e ajeitou os óculos escuros, lamentando-se por não ter sobretudo, nem mesmo carro, para fazer uma bela cena final enquanto os créditos subiam.

E sim, havia chego o final, ela se fôra, enfim estava livre. Morreu por alguém, por ele, viu sentido em algo. Algo só dela, uma única palavra escrita no papel já não mais em branco. E morreu amando-se, aceitou-se por ser de alguém. O que de fato é uma mentira, embora tenha sido verdade por alguns segundos, quando seus olhos se cruzaram.


FIM.

[+] Unknown as 9:40:00 AM -

...




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